dezembro 05, 2009

sentires

Vai alta a noite. Toda a casa está agora por sua conta.


Dançam as sombras do passado em seu redor, entre linhas.
Fica a observá-las sem olhar, a não querer ver nada: Têm aqui o meu pobre coração dorido, tudo o que tenho. Não devem pedir-me mais.
Contrariamente ao dia, a noite cabe inteira nas paredes da sala e ainda é possível escutar os murmúrios dos segredos partilhados, que já não habitam, apenas ocupam os lugares que podem.
Dói-lhe demais dizer-lhe para ele partir, contudo o silêncio pesa já obstinado, a querer impôr-se.
Não fossem as sombras ondulantes nas paredes, e conseguiria distinguir com nitidez a imagem intemporal, repetitiva e gasta, de dois corpos entrelaçados em flor, duas bocas a amanhecer coladas, e no quadro espelhado dos barcos multicolores, a ternura a escorrer das cores, o desejo a enfunar-lhe as velas. Lá longe, mas a fazer-se perto, um denso manto de nevoeiro a aproximar-se lento, desolador.
Epiderme derme.
Não sabe o que fazer para afastar as sombras. Não sabe se as quer assim tão longe, que só em sonhos as possa ter de volta. Parte-se-lhe o coração de as ter consigo, perde-se-lhe o coração se não as tiver por perto.
Pode ela partir. Directa à cama. Sentir no corpo dela o dele, só , adormecido no fundo do abismo escuro, e adormecer nele os seus sentires escondidos.
Esperar que o dia se reanime num aconchego de abrigo, a oferecer-lhe lesto o toque ardente e afinado do novo amor que, à sua rebelia, teima em amanhecer, resplandecente, com toque de seda.
Corta-lhe o coração a indecisão, que a habita em fogo, quando o encontra, a ele, dentro do seu dia. Não há escolha justa entre o amor e a saudade.
Não sabe como o deixar partir e não está preparada para o deixar ficar. Apenas sabe que não o quer perder. Os seus olhos já só conhecem o caminho dos dele e o jeito do seu riso começa a contagiar-lhe os dias.
Indomável epiderme treme.
Momentos breves em que o intocável pode ser palpável e o fugidio pode fingir ficar.
As manhãs, essas deixaram, há tempos, de ser refrescantes e pedem agora urgentes milagres para ocupar as entrelinhas e tudo o resto.

(maria)
(ImageNet: Chagall, "Le circle blue")

2 comentários:

Vento disse...

Não encontro uma palavra para confortar esse sentir, quanto muito acrescento, que estou presente à distância e que haverá sempre um novo amanhecer.

beijo

Filipe N disse...

Olá Maria.
Há sentires que não passam por nós,
talvez nos incluam sendo-lhes alheios...
E se no seu toque de seda tão purpura
a cor é a dor e tingido de branco o ardor
posso até fingir mas não deixo de te sentir.
Um beijo.